Um florido sobrado de 1929, na rua Miranda Azevedo, 167, esquina da rua Sete de Setembro, uma jabuticabeira centenária no quintal e um antigo posto de combustíveis guardam a memória afetiva das famílias de Antônio Marques Flores, Belarmino Moraes Arruda, Jorge Moysés Betti, Jorge Bittar, Rogério Pinto Coelho, Mário Amato e Octávio Marques Flores.Famílias que se entrelaçaram, formaram gerações e, com sua capacidade empreendedora, deixaram raízes profundas na memória do comércio de Sorocaba e em trabalhos voltados para a comunidade.O iniciador desta história foi o português Antônio Marques Flores. Ainda no século 19, ele veio para o Brasil com sua esposa Carolina Proença da cidade do Porto. Adquiriu terrenos no centro de Sorocaba, na rua Miranda Azevedo e adjacências. Sua chácara, com entrada pela rua Sete de Setembro, já próximo da Rua do Tecelão (hoje Padre Luiz), ocupava uma quadra, ia até a rua Manoel José da Fonseca, tinha plantação de uva e um campinho de futebol, de gratas lembranças.Era o tempo das feiras de muares. Marques Flores não comercializava mulas, mas se valia delas para mandar produtos daqui para o sul do país, especialmente tecidos e roupas simples feitas de algodão, como também recebia pelas bruacas dos muares artigos aqui consumidos. Fazia esse intercâmbio comercial junto a um bebedouro que havia próximo da Igreja de Santo Antônio, hoje Largo do Mercado, e embaixo da ponte da atual Rua XV de Novembro, passagem obrigatória das tropas.A Sete de Setembro hoje é conhecida como “a rua dos consertos e das revendas de automóveis”. Mas já foi “Rua das Tropas” e depois segmento da rodovia São Paulo-Curitiba (Raposo Tavares a partir de 1954), que passava por dentro de Sorocaba. Antônio Marques Flores viveu a sequência dessas fases. O posto de combustíveis da família, na esquina com a Miranda Azevedo, com bombas movidas à manivela, praticamente deu início a essa vocação do corredor comercial. Na oficina anexa ao posto passavam para manutenção os caminhões Fargo e os carros de passeio Plymouth da revendedora Abrão Reze e também os veículos Ford dos Irmãos Notari (Mário e Humberto), empresas que iniciaram suas atividades comerciais na rua Sete, junto ao posto.A família de Marques Flores viveu o tempo (anos 40 e 50) em que a região do Mercado Municipal era marcada pela presença de armazéns e atacadistas (João Cabral, Diogo Tudela, Irmãos Steffan, Manoel Parra, Ema Chebel, Armazém dos Rosas, Oliveira e Ramos). Quando os ônibus tipo “jardineira” passaram a fazer ponto por ali, vindos dos bairros e também de cidades da região, a atividade comercial ganhou ainda mais força.Além do tino comercial, o patriarca familiar teve consciência social. Quando o governo não conseguiu manter em dia o salário dos professores, lá estava Antônio Marques Flores, junto com outro patrício, o empresário Antônio Pereira Inácio, iniciador do Grupo Votorantim, garantindo por três meses o pagamento.Foi um dos fundadores da Sociedade Beneficente e Recreativa Vasco da Gama, que é de 1898, tendo participado da elaboração do estatuto e como membro da primeira diretoria dessa entidade de apoio à colônia portuguesa. Em 1922, Sorocaba sentia a necessidade de ter uma instituição que defendesse o comércio e os comerciantes. Lá estava Marques Flores como um dos entusiastas fundadores da Associação Comercial de Sorocaba, instalada inicialmente no Gabinete de Leitura Sorocabano.Tratado afetivamente por “Dindinho” e sempre trajando terno, colete e relógio de bolso, o dinâmico português faleceu em 1938, deixando um lastro de trabalho e uma liderança que se refletiram nos filhos, netos, bisnetos e tataranetos, numa descendência que envolveu muitas ligações familiares.Antônio Marques Flores e Carolina Proença Flores tiveram 6 filhos: João, Octávio, Bibiana, Rita Proença, Maria Proença e Guiomar.João Marques Flores casou com Inês Azimonte e teve uma segunda esposa, Dóris. Octávio Marques Flores foi casado com Marina Rodrigues, e o casal teve os filhos Octávio Marques Flores Filho (Otavinho, ex-diretor superintendente e vice-presidente-executivo da Melalac Sorocaba, hoje com 80 anos) e Antônio Marcos Flores.João e Octávio participaram da Revolução Constitucionalista de 1932 e seguiram as passadas do pai, contando também com o cunhado Belarmino Moraes Arruda.
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