“O homem é o que conhece. E ninguém pode amar aquilo que não conhece. Uma cidade é tanto melhor quanto mais amada e conhecida por seus governantes e pelo povo.”
Rafael Greca de Macedo, ex-prefeito de Curitiba
"A História serve para compreender. Ela não serve inicialmente para julgamentos de valor, (muito menos tem valor). Mas ao nos propiciar compreensão do que ocorreu, ela também nos propicia uma forma de nos situarmos no presente, de maneira a não repetir os erros do passado e, ao mesmo tempo, poder construir projetos para o futuro, de forma mais consistente."
Marc Léopold Benjamin Bloch (1886-1944)
(...) a memória coletiva brasileira, ao mesmo tempo que é a oficial, que não é uma memória do povo, mas é a memória das elites, é a memória oficial, é a memória que acaba indo para os livros, a memória que acaba aparecendo nos livros de escola. A memória que é falada em discursos, essa memória das elites, é a memória do patrimonialismo da classe patrimonial, que administra o Brasil desde a fundação, é a memória das famílias que se sucedem no poder e que formam um ciclo, ao mesmo tempo cultural, um ciclo simbólico para contar a sua própria História. Dentro desse círculo, um círculo restrito de parentela, de parentesco, de poder, e dinheiro, a memória existe, ou seja, não é um país sem memória. Muniz Sodré, sociólogo:
INTENÇÃOPara entender a História é necessário entender a origem das idéias a impactaram. A influência, ou impacto, de uma ideia está mais relacionada a estrutura profunda em que a foi gerada, do que com seu sentido explícito. A estrutura geralmente está além das intenções do autor. As vezes tomando um caminho totalmente imprevisto pelo autor. O efeito das idéias, que geralmente é incontestável, não é a História. Basta uma pequena imprecisão na estrutura ou erro na ideia para alterar o resultado esperado. O impacto das idéias na História não acompanha a História registrada, aquela que é passada de um para outro. [24717]
Até um certo momento da História ninguém se preocupava em saber quem foi o autor de uma certa ideia. Eles queriam saber quem era o autor, mas se a ideia era verdadeira ou falsa. É uma situação completamente diferente da de hoje. Hoje temos uma extrema preocupação com a autoria das ideias, porque, no curso dos tempos, se interessar somente se uma ideia é verdadeira, sem saber de onde ela veio, se revelou contraproducente.
As pessoas passaram a se preocupar com a História das ideias, porque o diálogo entre os grandes espíritos de todas épocas estava ficando confuso. Veja, René Descartes (
1596-
1650) não tinha, em sua biblioteca, mais de 100 livros, e ele era um homem cultíssimo. Ele leu os 100 livros, praticamente os sabia de cor. Então, por esses 100 livros, ele tinha mais menos uma ideia, das doutrinas, das hipóteses em circulação no tempo dele. Mas, suponha que ele não tivesse 100 livros, ele tivesse 20 mil, aí a coisa já começa a complicar um pouco. Pois, se você não rastrear a História, você não anotar quem veio antes, quem veio depois, quem falou tal coisa, quem falou outra, você acaba se confundindo.
Se as pessoas não se preocupam em saber quem teve uma ideia, elas também não podem se preocupar em pensar com a própria cabeça. Aristóteles gostava de rastrear a origem das opiniões anteriores sobre o assunto que ele estava estudando. Essa convicção tão comum hoje em dia, essa frase que aparece na boca de tantas pessoas "eu penso com minha própria cabeça; eu tenho minhas próprias opiniões", não é uma coisa natural acontecer no ser humano, passou a acontecer historicamente a partir de um certo momento.
É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade! Em
1988 um comercial de televisão ganhou diversos prêmios, sendo o mais importante o Leão de Ouro em Cannes. Em
2000, figurou na lista das 100 melhores propagandas de todos os tempos. Falava sobre um homem que assumiu o poder, legalmente, em 30 de janeiro de
1933:
Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho ao seu povo. Em seus quatro primeiros anos de governo, o número de desempregados caiu de 6 milhões para 900 mil pessoas. Este homem fez o produto interno bruto crescer 102% e a renda per capita dobrar, aumentou os lucros das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de Marcos e reduziu uma hiperinflação, a no máximo 25% ao ano. Este homem adorava música e pintura e quando jovem imaginava a seguir a carreira artística.Então, isso quer dizer, que o acúmulo de personagens no diálogo supra-temporal causou uma bagunça. Então as pessoas começaram a ter a preocupação de rastrear. Essa preocupação hoje é tão séria, que, para você publicar um trabalho científico, numa revista acadêmica, você tem que contar quais foram seus antecessores, quais são as fontes das quais você partiu. Por que, se você não fizer isso, ninguém sabe aonde está, na sequência histórica, a ideia que você está apresentando. Você é o primeiro a dizer isso? Ou você está trabalhando em cima da ideia de outro? Você está aprovando a ideia do outro? Você está criticando essa ideia? Está mudando? Acrescentando uma coisa nova? Onde você está historicamente?
"A nossa história, oficial e acadêmica, trabalha com probabilidades, quando se trata de Balthazar Fernandes. Aliás, nem se sabe ao certo a grafia do seu nome, se é Baltasar ou Baltesar, se é Balthazar ou Balthezar, tal é a diversidade das informações contidas nos documentos."Essa é a primeira tentativa de disponibilizar tudo que foi escrito sobre Balthazar Fernandes.
A peça publicitária leva o telespectador a entender que estão sendo apresentadas diversas características de um "homem de bem", porém ao fim é surpreendido quando descobre que este homem é Adolf Hitler. Ela destacou-se na época pela sua falta de atributos. Enquanto o narrador enumera qualidades genéricas, textualmente, uma visão limitada, que não está captando o todo.
NOVA ABORDAGEMFrequentemente o ser humano médio, hoje, acredita piamente pensar com a própria cabeça, quando isso é praticamente impossível. Quando você pergunta á alguém "Qual é a origem dessa sua ideia? De onde você tirou essa ideia?". E 99% dos casos as pessoas respondem justificando a ideia, argumentando em favor dela. E a origem já não sabem. Se você não sabe a origem das suas idéias, você não sabe qual o poder que se exerceu sobre você e colocou essas ideias dentro de você. Então, esse rastreamento, quase que biográfico, dos seus pensamentos, se torna um elemento fundamental da formação da consciência.
Existem inúmeras correntes de poder atuando sobre nós. Então o exercício da inteligência exige "perfurar" essa camada do poder, para você entender quais os poderes que exercem sobre você, e como você "deslizar" no meio deles. Isso se torna difícil porque, as pessoas, de modo geral, não meditam sobre a origem das suas ideias, elas absorvem do meio cultural, e conforme tenham um sentimento de concordância ou discordância, absorvem ou jogam fora.
As correntes culturais são tantas e o poder delas é tão imenso, que você já não está repetindo alguém que você ouviu, pois você não lembra onde ouviu, então você pensa que a ideia é sua. Então, você conhecer a origem sociológica e cultural das suas ideias, e saber quais as correntes de pensamentos, correntes culturais, que estão presentes em você, e que estão moldando seu pensamento, e daí você julgá-las criticamente, se você quer ou não quer, escolher a melhor. Mas, em geral, as pessoas não escolhem, elas absorvem a esmo. Então, é quase como você se fazer uma psicanálise intelectual. Deitar (...) e tentar lembrar de onde foi que você tirou as suas ideias.
QUANTOS REGISTROS COMPÕEM UMA HISTÓRIAA representatividade do acervo é um assunto que nos preocupa as vezes, precisamos abrir mais o seu leque de representatividade, a população de um modo geral. Não quer dizer que não tenha, por exemplo nós temos uma coleção..
Este trabalho dedica-se à gestão da História, que são os profissionais que atuam quando o documento "nasce". Porque o documento começa a ser memória já no seu nascimento, e os documentos que chegam no Arquivo Nacional fazem parte de um processo, político e técnico de escolhas. O que vai virar arquivo histórico, na verdade é um processo político de escolhas, daquilo que vai constituir um acervo que vai ser perene e que vai representar, de alguma forma a História daquela empresa, daquele grupo social e também do Brasil, como é o caso do Arquivo Nacional. É sempre um processo político de escolha, por isso que é tão importante termos servidores públicos posicionados, de pessoas preparadas para estarem atuando nesse aspecto.Aluf Alba, arquivista:
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