João Vitor Martins, em Casarões e edificações históricas
31 de dezembro de 2024, terça-feira Atualizado em 16/04/2025 23:34:56
•
•
O ENGENHO DE MAXAMBOMBA - NOVA IGUAÇUDando continuidade a série Engenhos do Recôncavo da Guanabara, hoje falaremos sobre o Engenho de Maxambomba, através deste artigo guardado especialmente para este final de ano, período tão especial, quando também completamos 4 anos de trabalho nesta página. Este artigo tem como objetivo valorizar tão importante fragmento da história iguaçuana, rastrear a origem do engenho, resgatar a memória de importantes personagens do Brasil Colônia que participaram do processo de ocupação do nosso território e trazer à tona importantes fatos dessa história que ficaram perdidos nas brumas do tempo, como o surpreendente caso do brutal assassinato do seu primeiro proprietário numa emboscada, que foi o início de um longo conflito. Uma história digna de novela. Imperdível!
Por Hugo Delphim - Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu.
OS PRIMEIROS POVOADORES:
O território que compreende os lados leste e sudeste do Maciço do Gericinó começou a ser povoado por volta de 1600, quando Manoel Gomes e seu genro Diogo de Montarroio fundaram um engenho de cana de açúcar denominado Engenho de São Diogo, localizado nas proximidades do rio que posteriormente se chamou Pioim, na face sudeste do maciço. Era um engenho real, isto é, movido a água, e por este motivo também se chamou, Engenho d´Água. Em 1603 pediram confirmação das terras e foram atendidos através de uma carta de sesmaria.
Estas terras haviam sido compradas de Gonçalo de Aguiar e faziam parte da antiga sesmaria de Brás Cubas, governador da Capitania de São Vicente e fundador da Vila de Santos, que ocupou os mais importantes cargos do Brasil Colônia. Embora esse personagem seja citado em diversas fontes como o primeiro povoador da Baixada, a consulta as mais variadas fontes primárias indicam que ele não tomou posse da dita sesmaria, pelo menos em parte, que logo entrou em “comisso”, se tornando “terras devolutas”. Foi com essa alegação que Gonçalo de Aguiar e alguns de seus vizinhos mais a oeste do maciço, solicitaram novas sesmarias, tendo êxito com as novas concessões.
Manoel e Diogo eram cristãos novos, os chamados criptojudeus, que professavam a fé católica em público, mas o judaísmo em secreto, para escapar do Tribunal do Santo Ofício, a terrível inquisição. Diogo de Montarroio foi pai de Isabel de Montarroio, que se casou com João Álvares Pereira, o afamado construtor da Capela de São Matheus, de 1637, a qual já fez parte do território que pertenceu a Nova Iguaçu num passado não tão distante, hoje Nilópolis.
A ORIGEM DO ENGENHO DE MAXAMBOMBA:
O genro João Álvares Pereira se tronou proprietário das ditas terras e logo aumentou sua propriedade com uma nova aquisição, se tornando senhor do Engenho de São Matheus, atual Nilópolis, e de outro engenho denominado São Lázaro, que segundo os documentos se localizava em “Jorisinó”, mas em localidade ainda desconhecida. Trazendo para os dias atuais, suas terras englobavam os territórios de parte do Campo de Instrução do Gericinó, somado a Nilópolis, Mesquita e parte de Nova Iguaçu.
Com sua morte, as terras foram divididas entre seus herdeiros. Seu filho Baltazar Álvares Pereira recebeu terras localizadas nas fraldas da face sudeste do maciço e vendeu a Inácio de Andrade Souto Maior, que fundou o Engenho do Gericinó. A filha Merência de Barcelos ficou com as terras do Engenho de São Matheus (atual Nilópolis), com casa de vivenda, capela e demais benfeitorias. Outras terras não contíguas, em Marapicu, passaram para sua outra filha, Brites de Lemos, casada com Agostinho Barbalho Bezerra, um dos líderes da Revolta da Cachaça que se tornou governador do Rio de Janeiro. Um filho homônimo ficou com terras distantes, em Inhaúma. Contudo, a parte que nos interessa para este estudo ficou com seu filho Luiz Álvares Pereira, que posteriormente vendeu a Pedro de Souza Pereira, o moço, que ali fundou o Engenho de Maxambomba.
Um documento de 1685 testifica a genealogia da terra traçada até aqui, conforme seguinte trecho:
“Segundo testamento de Pedro de Souza Pereira, o moço (...) Declaro que comprei a Luiz Álvares Pereira, filho de João Álvares Pereira, já defunto, na paragem que chamam MAXAMBOMBA, 750 braças de testada por meia légua de sertão, fora as águas vertentes da serra, nas quais tenho feito um engenho novo, com seu partido de cana. Declaro que no ENGENHO DE MAXAMBOMBA tenho 40 bois mansos, todos os cobres, uma moenda aparelhada...” (Arquivo do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro)”
A DENOMINAÇÃO:
Através do trecho, é possível observar que Maxambomba era a denominação de toda uma paragem, isto é, uma região, não apenas de tal engenho, sugerindo que o nome pode ter origem numa possível toponímia. Talvez por este motivo, é descrito no trecho como Engenho “de” Maxambomba. Contudo, segundo a historiografia oficial, que é a mais aceitável e com qual concorda o autor deste estudo, a propriedade recebeu esse nome em alusão ao mecanismo de tração e transporte utilizado no engenho, sendo então o Engenho “da” Maxambomba, ou seja, o engenho onde era utilizada uma “maxambomba”. Este documento é o mais antigo onde se contra este termo e para encerrar possíveis dúvidas quanto a origem desta denominação, é importante encontrar documentos anteriores a este período, que não foi possível. Vale citar que diversas consultas aos mais antigos dicionários do tupi, das línguas de origem africana e do português antigo, foram infrutíferas, não encontrando tal termo nos mesmos.
OS DOIS PEDRO DE SOUZA PEREIRA:
Para que não se confunda dois personagens distintos, é importante ressaltar que Pedro de Souza Pereira, foi chamado “o moço” em tal documento e em outros do período, por ser filho homônimo de outro Pedro de Souza Pereira, o Velho, que ocupou o importante cargo de Provedor da Fazenda Real do Rio de Janeiro, responsável por todos os negócios fazendários e fiscais, como por exemplo, a fiscalização do recolhimento das dízimas do açúcar. Também foi administrador geral das Minas das Repartições do Sul, em São Paulo, Curitiba, Paranaguá e Iguape, além de senhor de diversos engenhos, como o Engenho de Meriti, terras no Curral Falso e em Juari (atual Campo Grande), entre outras, como proprietário da fábrica da armação das baleias, um dos negócios mais lucrativos da época. Era ricaço.
A NOBREZA DA TERRA:
Tal personagem, o pai, foi fidalgo da casa real e descendia dos Frazão de Souza, pertencente a nobreza de Portugal. Foi casado com Ana Correia de Sá, descendente da mais alta nobreza da terra e dos conquistadores do Rio de Janeiro, pois era bisneta de Antônio de Mariz, sobrinha de Salvador Correia de Sá, o Velho, governador geral do Rio de Janeiro, que deu nome a Ilha do Governador, e filha de Manoel Correia de Sá, um dos Sete Capitães de Campos dos Goytacazes. Portanto, foi irmã de Tomé Correia de Alvarenga, que também foi governador do Rio de Janeiro e do sargento-mor Martin Correia Vasques. Dos filhos deste consórcio, dois também ocuparam o cargo de Provedor da Fazenda Real, cargo que esteve nas mãos da família Souza Pereira por cerca de 40 anos. Aquele que nos interessa foi o aludido Pedro de Souza Pereira, segundo do mesmo nome, importante personagem que deve ser inserido na história iguaçuana, do qual falaremos daqui em diante.Este segundo Pedro de Souza Pereira, também Provedor da Fazenda Real residiu num casarão de sobrado localizado na Rua Direita, vizinho da antiga Alfândega. Posteriormente, esse casarão abrigou a Casa dos Contos e o primeiro Banco do Brasil, que faliu. Neste terreno hoje se localiza o Centro Cultural do Banco do Brasil.O BRUTAL ASSASSINATO DE PEDRO DE SOUZA PEREIRA, O MOÇO:Além do Engenho de Maxambomba, Pedro de Souza Pereira, o moço, também foi proprietário do Engenho de Meriti, que recebeu come herança de seu pai. Apesar do nome, não se localizava na Freguesia de Meriti, mas na de Irajá, entre os rios Pavuna e Meriti. Fazia divisa com o Engenho de Nazareth (hoje bairro Anchieta), do seu tio Tomé Correia de Alvarenga, que também foi governador do Rio de Janeiro. A criação deste engenho é anterior a data da criação destas duas freguesias e seu pai aparece entre os senhores de engenho que pediram pela criação da Freguesia de Irajá. No dia 20 de setembro de 1687 ocorreu o brutal assassinato de Pedro de Souza Pereira, o moço, numa emboscada elaborada e colocada em prática por outros membros da elite senhorial daquele período, também senhores de engenho naquela região. Sobre este fato, segue trecho da denúncia do sargento-mor Martin Correia Vasques, seu outro tio, acerca do seu assassinato: ”...por serem todos na aleivosa morte que deram a meu sobrinho Pedro de Souza Pereira em uns dias de sábado, que se contaram vinte de setembro do ano passado de mil e seis sentos e oitenta e sete ao qual indo para o seu engenho que tem em Meriti partindo desta cidade no dito dia de madrugada em uma embarcação ligeira (...) de propósito e caso pensado o estavam esperando (...) com alguns mulatos, e negros todos armados de muitas armas de fogo (...) lhe dispararam de repente três ou quatro clarinassos com tanta quantidade de balas que treze se empregaram no corpo do dito meu sobrinho...” (Fonte: Senhores e Governadores - Denise Demétrio Vieira)Os documentos da época demonstram que houve a participação de três membros da importante família dos Gurgel do Amaral, como o mentor Dr. Claudio Gurgel do Amaral, que ocupava o cargo de Procurador da Coroa e da Fazenda, Francisco Gurgel do Amaral e Bento do Amaral, todos importantes personagens daquele período que fizeram fortuna e ocuparam cargos importantes. Eram descendentes do corsário francês Toussant Grugel, capturado em Cabo Frio por volta de 1571, que foi perdoado pelo seu algoz, o Capitão João Pereira de Souza Botafogo, ganhando sua admiração, fixando residência no Rio de Janeiro e casando com Domingas de Arão, iniciando o ramo desta importante família que se espalhou por outras partes do Brasil.
Também tiveram participação no crime o parente Coronel Manoel Martins Quaresma, proprietário do Engenho de São Bernardo (atual bairro Parque Anchieta) e do Engenho de N. Sra. do Rosário e Santo Antônio, no local outrora denominado Jamboí, em Jacutinga; o licenciado João Velho Barreto, proprietário do Engenho da Pavuna; o Capitão Antônio de Abreu de Lima, proprietário do Engenho do Porto de Meriti (atual bairro Engenho do Porto, em Duque de Caxias); entre outros, todos aliados dos Gurgel do Amaral.
A RIVALIDADE COM OS CORREIA DE SÁ, SEUS PARENTES E ALIADOS:
Este e outros curiosos episódios ocorreram devido a insatisfação e rivalidade com os Correia de Sá, seus parentes e aliados, que dominavam os principais ofícios e cargos da administração pública e que desde as décadas anteriores já não eram tão queridos como outrora foram no Rio de Janeiro. Todo o desenrolar dessa história não cabe neste trabalho, pois é digno de uma novela. Inclui diversos episódios, como o sequestro da noiva de José Velho Barreto, filho de João Velho Barreto, dentro de seu Engenho da Pavuna, a mando de Martin Correia Vasques, contrário ao casamento, pois a mesma era viúva de seu filho, o Alcaide-mor Tomé Correia Vasques. A noiva se chamava Antônia Teresa Maria Paes e era filha do guarda-mor Garcia Rodrigues Paes, ilustre personagem que abriu o Caminho Novo para as Minas Gerais. Outro capítulo dessa história foram os assaltos e invasões em diversos engenhos do recôncavo, praticados por 30 índios vindos da Vila de São Paulo, liderados por Francisco e Bento do Amaral, que lá se refugiaram com a parcialidade dos poderes locais e retornaram nos anos seguintes praticando diversos crimes.
A IMPUNIDADE, COMPLACÊNCIA E FORTUNA:
Dentre os que se ocupavam na defesa dos Gurgel do Amaral, estava o Bispo Francisco de São Jerônimo, que entre os antigos cronistas é descrito como o temível e implacável Inquisitor de Évora, que deu continuidade as suas abominações no Brasil. Quando Bispo do Rio de Janeiro, foi responsável por centenas de prisões e condenações, muita das vezes sem motivo, de supostos ou verdadeiros judeus que ocupavam todo o Recôncavo da Guanabara, num dos episódios mais abomináveis da nossa história. Apesar desses crimes e de outros assassinatos praticados, os Gurgel do Amaral ficaram impunes por muito tempo, se refugiando sob proteção na Vila de São Paulo e nas Minas Gerais, onde ocuparam importantes cargos e fizeram fortuna. Segundo os antigos relatos de André João Antonil, Francisco Gurgel do Amaral se tornou um dos homens mais ricos das Minas Gerais, com uma fortuna de mais de 50 arrobas de ouro. Embora violentos, quando retornaram ao Rio nas décadas seguintes, participaram de importantes capítulos da história local. Francisco se ofereceu para construir, as próprias custas, a fortaleza da Ilha das Cobras. O Dr. Claudio Gurgel do Amaral, homem letrado e também poeta, foi quem doou o terreno ocupado pela Igreja da Glória e quem construiu, as próprias custas, o desaparecido Forte de N. Sra. da Glória. Muito religioso, talvez para esconder seus maus feitos, foi o Provedor da Santa Casa de Misericórdia e, por ironia, chegou a ocupar o cargo de Provedor da Fazenda Real, aquele mesmo ocupado pela família de sua vítima por mais de 40 anos. Muitos cargos ocupou se dando ao luxo de não receber remuneração, pois era homem de muitas posses, das quais só citarei uma, o Engenho de N. Sra. dos Remédios (atual Colônia Juliano Moreira, na Taquara), que posteriormente vendeu aos Telles Barreto de Menezes.OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE:No retorno ao Rio de Janeiro, as muitas violências praticadas por essa família voltaram, aos poucos, a acontecer. Em pleno domingo de ramos de 1716, seu filho José Gurgel se uniu a José Pacheco, filho de Francisco Viegas, do Engenho do Viegas (hoje Senador Camará) e cometeram um sacrilégio, ao invadir a Igreja de Campo Grande com 25 capangas armados, duelando com o Capitão João Manuel de Melo, que fora proprietário do Engenho de Jesus, Maria e José, posteriormente conhecido como Engenho dos Coqueiros (parte da atual Bangu), e da Fazenda do Retiro (próxima ao complexo penitenciário de Bangu), o qual foi assassinado. A vítima era partidário do Governador Francisco Xavier de Távora, do qual Claudio Gurgel do Amaral também era inimigo voraz. O padre Manuel de Távora também foi atingido. Documentos antigos relatam que a viúva transportou, imediatamente, o cadáver do Capitão João Manoel de Melo até o governador, colocando aos seus pés.José Gurgel fugiu para as Minas Gerais, buscando a proteção de seu tio. Mas a pressão popular e das autoridades por justiça foi tão grande, que o governador mandou destruir a propriedade onde seu pai se refugiava, a famosa Chácara do Oriente, na Glória. Claudio não teve a mesma sorte, pois os aliados da vítima o atacaram numa emboscada, quando o mesmo saia do Engenho do Viegas acompanhado de Inácio Correia da Silva, que também fora proprietário de parte do Engenho de N. Sra. dos Remédios e de outro engenho na Freguesia de Irajá. Inácio morreu na hora e Claudio nos dias seguintes.A ERA DOS CORREIA VASQUES:Voltando ao Engenho da Maxambomba, o Provedor Pedro de Souza Pereira, o moço, que fora assassinado, era solteiro e não tinha filhos. Dentre os bens que possuía, o Engenho de Maxambomba ficou para o Mosteiro de São Bento, por cabeça de um de seus irmãos, o frei João de Souza, religioso daquele mosteiro. Contudo, o sargento-mor Martin Correia Vasques, seu tio, colocou dúvida no direito do mosteiro a tal herança, pois seu sobrinho havia deixado em inventário mais de 30 mil cruzados às filhas e filhos de Martin. Foi proposto um acordo com os beneditinos e através de uma composição, trocaram o Engenho de Maxambomba pelo valor deixado em testamento.A partir deste ocorrido, o sargento-mor pede confirmação das terras através de carta de sesmaria, que segundo a relação de Monsenhor Pizarro, extraída do Livro de Sesmarias e Registros do Cartório do Tabelião Antonio Teixeira de Carvalho, foi concedida em 1692 e 1693, conforme seguinte trecho:“S. M. Martin Correia Vasques terras e sobejos entre os Engenhos da Caxoeira e Maxambomba para a serra em 7 de novembro de 1693 (...) S. M. Martin Correia Vasques terras e sobejos entre os seus Engenhos da Cachoeira e Maxambomba em 15 de novembro de 1692...”Seguindo a tradição familiar, nos anos seguintes Martin Correia Vasques ocupou o cargo de Governador do Rio de Janeiro, ainda que interinamente, entre 1697 e 1700. É deste período em diante as memórias tão ricamente abordadas na historiografia, da qual não trataremos neste trabalho por falta de espaço. O Engenho de Maxambomba permaneceu nas mãos da família Correia Vasques por mais de um século, passando de geração em geração e dele surgiu o Engenho da Cachoeira (atual Mesquita). Seus diversos proprietários foram citados por variadas fontes atingas, como o relatório do Marquês do Lavradio. No século XIX passou a ser chamada de Fazenda de Maxambomba e o local já era ocupado por um florescente arraial, onde surgiu a Estação de Maxambomba.A CITRICULTURA E A CHÁCARA:Outro período importante para a história iguaçuana, que merece ser tratado exclusivamente num artigo posterior, foi o período do cultivo da laranja, no século XX. A partir de então, diversas fazendas foram fragmentadas, como a de Maxambomba, dando origem a muitas chácaras produtoras de laranja com seus belos edifícios. Foi um período de muita prosperidade para a região e dessa época é a imagem inédita utilizada nesta publicação. Se trata da magnífica chácara chamada Villa Orsina, propriedade do Dr. Manoel Reis, que se localizava em parte da antiga Fazenda de Maxambomba, mais precisamente em algum lugar entre os atuais bairros Califórnia e Rancho Novo, onde tal personagem fez surgir, com esforços, uma pena d’água para a população.Quanto ao casarão do Engenho ou Fazenda de Maxambomba, se localizava numa elevação no bairro Califórnia, próximo a Via Dutra. É desconhecida alguma imagem do mesmo. Por sorte, encontrei uma há alguns anos, muito prejudicada, onde só aparece, ao fundo, uma das janela de tal edificação, com o mesmo estilo das janelas das fazendas de café de outras regiões, comum ao período. Como sonhador, me resta continuar procurando por uma imagem completa e, enquanto isso, apaixonado pela história de iguaçu, vou viajando no tempo com as memórias daquela que, como diz o belo hino iguaçuano, é “A Maxambomba, dos Engenhos do passado...”. *Texto e pesquisa de Hugo Dephim, escritor, pesquisador da história do Recôncavo da Guanabara e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu. Todos os direitos reservados.*As fontes foram citadas de forma simplificada no texto para melhor entendimento do leitor.*Imagem do acervo pessoal de Hugo Delphim, tratada e colorida pelo mesmo.
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]